Cultura do Maracujazeiro, com Sandra Ferreira | Cultiva-te | AgroB

Cultura do Maracujazeiro, com Sandra Ferreira

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O maracujá, nomeadamente o roxo, é uma cultura emergente em Portugal que encontra no nosso país condições para o seu crescimento e desenvolvimento, especialmente no litoral. No entanto, existem alguns entraves, nomeadamente nas questões da fitossanidade, que surgem perante os produtores e potenciais interessados nesta cultura.

 

Para o efeito, colocamos algumas questões numa conversa via zoom à Engª Sandra Ferreira, responsável pelo acompanhamento de várias explorações agrícolas de maracujá, prestando assessoria nos trabalhos de instalação, fertilização e poda, e formadora na AgroB no curso da Cultura do Maracujá.

 

Vídeo: Conversa via Zoom com a Engª Sandra Ferreira

 

O maracujá, sendo uma cultura relativamente recente, em Portugal, não encontra tantos inimigos como nos países do qual é originário, nomeadamente na América em climas subtropicais e tropicais. Contudo, sabemos que há alguns inimigos do qual é particularmente suscetível. Pode-nos falar um pouco sobre eles?

O Maracujá, apesar de o conhecermos em Portugal há bastantes anos, e se calhar mesmo na nossa infância recordamo-nos de ver na casa dos nossos avós, a título produtivo só há cerca de 10 anos é que começou a ter expressão, tanto no continente, mas com mais incidência nas ilhas da Madeira e dos Açores.

Como é uma cultura muito recente, o conhecimento e a aposta na investigação das doenças nesta cultura é um bocado mais escassa. Quando surgem estes problemas, há muita dificuldade em identificar corretamente quais as pragas e as doenças ou identificá-las de forma correta. Nestes países onde a cultura é originária, nomeadamente na América do Sul, ou mesmo nos países onde se faz esta produção, nomeadamente o maracujá roxo, já há mais documentação, já há mais estudos também sobre a cultura e este tipo de doenças e problemas, e a conclusão que é comum a todas elas é que, efetivamente, os problemas de fungos de solo, aqueles que provocam doenças nas raízes e nas zonas vasculares das plantas, são as mais difíceis de tratar e de controlar agora e no futuro.

Eu costumo dizer aos produtores que nos solos existem todos os tipos de fungos – aqueles que nós consideramos os “maus”, que são os patogénicos, e os seus antagonistas que são aqueles que nós em linguagem mais simples chamamos de “bons”. Temos é que dar condições ao solo para que os fungos patogénicos estejam controlados e não provoquem assim tantos danos nas plantas. Essas condições são principalmente estruturais a nível de solo. Ou seja, níveis de pH, oxigenação, excessos de água – quer sejam provocados por rega, lençóis frenéticos, excesso de chuva (que foi o que aconteceu estes meses), e, consequentemente, as drenagens, a quantidade da matéria orgânica e a qualidade da mesma… tudo isto são fatores que influenciam mais a presença de fungos no solo e, eventualmente, havendo algum desequilíbrio num destes fatores, há sempre maior risco desses fungos aumentarem a sua quantidade e não terem antagonistas suficientes para os combater de uma forma equilibrada. Isso vai então provocar problemas de doenças de raiz e problemas nas zonas vasculares nas plantas.

Outros problemas muito comuns e que provocam alguns danos, tanto na planta como na fruta – mas que são mais fáceis de identificar porque são visíveis – são as pragas e as doenças na parte aérea da planta, como o aranhiço, as antracnoses e eventualmente as tripes também. Mas efetivamente os maiores problemas a nível de pragas e doenças mais graves, na parte aérea, continuam a ser o aranhiço, as antracnoses e as septorioses… que apesar de serem mais fáceis de identificar, não significa que sejam mais fáceis de resolver!

Todas elas, quer sejam doenças de raiz, fungos aéreos ou pragas, provocam quebras produtivas. Portanto, menos qualidade e quantidade de fruta, produção de fruta com baixo valor comercial,  efetivamente acaba por afetar a parte económica da cultura. Mas como foi referido, os problemas radiculares são os mais difíceis e os que mais custam a resolver, porque há a efetiva morte das plantas e a necessidade de as retirar do terreno. O solo também fica contaminado, com o fungo presente, e, caso não se tomem medidas, aquelas correções estruturais que há pouco falamos, também se torna bastante difícil que plantas colocadas nesse mesmo local sobrevivam. Estes, para já (já não são poucos), têm sido os problemas maiores que encontramos nesta cultura.

 

Após esta instalação ou outro tipo de medidas, preventivas ou de ação, como é que o controlo fitossanitário tem sido gerido e que opções é que existem no mercado que estejam homologadas para o maracujá ou que possam ser utilizadas nesta cultura para ultrapassar esta questão?

Como há cada vez mais uma maior necessidade de manter as plantas sãs, há necessidade também de produzir frutos com maior valor comercial. Portanto, o que é que importa no valor comercial do maracujá? Como consumidores, olhamos mais ao aspeto da fruta, ao calibre também e ao grau Brix, a parte inerente à doçura do fruto em si. Portanto tem havido um maior controlo da sanidade das plantas.

No mercado, há claramente uma falta de produtos homologados e autorizados para utilização nesta cultura, mas apesar disso há também uma vontade redobrada, por parte dos produtores, em controlar estes problemas fitossanitários com o mínimo de impacto no meio que os rodeia. Nota-se que há uma procura e uma necessidade de utilizar outro tipo de soluções que não a luta química.

Para se tratar de alguns problemas e doenças temos que ir por etapas… No caso dos produtores com quem contacto, além do reforço nutricional das plantas, temos que ter sempre em memória que plantas mais saudáveis resistem melhor ao stress (tal como nós). Tem havido também uma maior procura pela luta biológica, através dos organismos auxiliares, quer seja contra pragas, quer seja contra fungos, e também há uma maior procura por produtos que não deixem resíduos, chamados de “resíduos zero”. Todas estas soluções têm que ser pensadas e utilizadas com conta e medida. É necessário primeiro perceber até onde faz sentido economicamente, para o produtor, utilizar este tipo de produtos, ou seja, até onde é que eu como produtor posso ir economicamente, porque infelizmente este tipo de soluções ainda são um bocadinho “caras” – não gosto do termo “caras” porque só é caro se não funcionar, mas visto de uma forma isolada, são tratamentos bastante dispendiosos, e que é necessário ter aqui algum controlo e saber até onde podemos ir…

Como produtores devemos encarar a luta biológica como primeira opção, mas para isso é necessário que haja uma atenção redobrada ao pomar. É quase obrigatório estar lá diariamente e não deixar que as pragas e as doenças avancem até a um ponto em que é difícil de as controlar através dessa forma. Após essa opção, caso não existam melhorias, ou a presença da praga e da doença já esteja de uma forma mais descontrolada, deve-se então optar por essas soluções de “resíduo zero” e, por último, as soluções químicas. Estas últimas são as mais efetivas, mas há muito poucas opções. Como em todas as culturas, há muitas substâncias ativas que neste momento estão a sair do mercado. As empresas de fitossanidade também têm os seus departamentos de I&D (Investigação e Desenvolvimento) e vão lançando no mercado muitas soluções alternativas. Mas como é uma cultura que ainda não tem muita expressão, não é muito viável economicamente no mercado este tipo de soluções químicas e – mais uma vez reforço devem ser sempre a última opção – muitas não são autorizadas na cultura do maracujá. Por esta razão há maior dificuldade em controlar alguns problemas daqueles que já referimos e que têm um impacto muito grande porque os produtores acabam por desanimar, mas nada como a vontade de melhorar e contornar esses problemas para ajudar a resolver esses contratempos.

Nós falamos muito disto no curso da Cultura do Maracujazeiro. Como já disse, o maracujazeiro é muito sensível a doenças radiculares provocadas por fungos –  por exemplo o fusário – e por várias vezes tivemos que replantar dezenas de plantas, por vezes também no mesmo local, porque, lá está, mesmo quando há projetos e a parte das certificações, têm que lá estar as plantas… Por ser um problema recorrente, extremamente de difícil de controlo, quer seja ele químico, biológico ou estrutural, já se tentou de todas estas formas… Então o fruto da vontade de alguns produtores de ultrapassar estas dificuldades foi apostar na semi-hidroponia.

Esta aposta ainda é muito recente e está em fase experimental, sabemos também que já há outros produtores que já avançaram ou experimentaram há mais tempo este tipo de solução… esta aposta no norte e centro litoral ainda é muito recente e ainda se está a estabelecer e a conhecer o equilíbrio produtivo nesta modalidade. No caso da semi-hidroponia, como não há contacto com o solo, as plantas estão na superfície em material inerte, o intuito é não haver contacto das raízes com os fungos do solo e teoricamente não serem afetadas  e tornarem-se plantas produtivas, mas menos afetadas pelo fungo. Agora, se houver algum tipo de investigação ou mesmo o desenvolvimento de algum porta-enxerto que seja resistente ao fusário… será sempre bem-vindo.

 

Pois, porque irá implicar um menor custo à instalação, não é?

Exatamente, uma coisa é instalarmos em terra e outra é instalarmos em vasos ou em fibras de coco, que se torna um custo bastante alto na instalação.

 

Para terminarmos, gostaríamos de saber a sua opinião, sendo esta a opinião de quem está no campo e trabalha com a cultura desde o início do seu estabelecimento em Portugal, quais são as perspetivas de desenvolvimento do maracujá em Portugal nos próximos 10 anos?

10 anos é um espaço temporal que parece longo, mas é bastante curto e passa num instante!

Na minha opinião, e como consumidora também, noto que tem havido cada vez mais procura pelo fruto português. Consequentemente, tem de haver mais procura e mais interesse para se fazerem instalações de maracujá. Como técnica que trabalha com esta cultura e nesta área, tenho esperança que daqui a 10 anos seja uma planta com um tipo de expressão económica maior, com maior interesse produtivo e de maior valorização.

Para isso é necessário haver mais investigação, mais vontade de melhorar e mais defesa da própria cultura, de forma a não se desmoralizar perante as dificuldades que falamos anteriormente, que não serão sempre aquelas, serão outras, mas é como em tudo… Além disso, para haver esta valorização da cultura, para se conseguir atingir alguma posição económica, reconheço que é importante haver, e sinto que ainda falta muita, união entre os produtores. Só havendo isso, e eles serem cooperantes entre eles, é que se conseguirá defender a fileira, e melhorar a fileira e a sua posição. Ainda estamos num panorama de “cada um por si”, para além de estarem muito distantes a nível de quilómetros, também estão muito distantes entre produtores. Um faz de uma maneira, outro faz de outra, não há uma fórmula correta de isto funcionar, mas acho que haver a partilha das experiências entre cada um, o que poderia melhorar bastante a fileira e de futuro ter uma expressão diferente. A criação de algum tipo de organização – uma associação de produtores – para este intercâmbio de experiências, partilhas de dúvidas e melhoria da cultura… se isso fosse possível, era de excelente interesse. Estando na linha de pensamento dos produtores criarem uma associação ou organização de produtores, poder-se-á ter um peso diferente em negociações com algum tipo de clientes e eventualmente entrar noutros tipos de mercados, por exemplo na exportação.

Falo como exemplo, das grandes superfícies. As grandes superfícies, para fazerem algum tipo de campanha, ou terem um produto em “casa”, necessitam de ter uma previsão de quantidades. No caso do maracujá é extremamente difícil, podemos ter uma ideia, mas pode correr tudo ao lado, não é? Podemos sempre definir o valor um bocado por baixo e efetivamente podem as coisas correr de feição e termos uma produção muito mais alta daquela que previmos ter. Aí as grandes superfícies pedem-nos, como produtores ou como centrais, um número da quantidade que lhes vamos ter que fornecer e pode correr bem ou pode correr mal.

Vou dar um exemplo: uma grande superfície precisa de 5 toneladas e eu posso não conseguir as 5 toneladas, mas se estivermos todos na mesma linha de pensamento, podemo-nos juntar todos como produtores e eu forneço 3, o outro fornece meia, o outro fornece mais 1… e aos pouquinhos acabamos por chegar às 5. Cumprimos com o contrato, ganhou-se dinheiro, porque nós produzimos não só por diversão, também para ter algum retorno económico… e acho que se pensassem todos desta forma, e tivessem todos na mesma linha de pensamento, poderiam ter algumas vantagens em criar esse tipo de associativismo e cooperativismo entre eles.

Por isso, na minha perspetiva nos próximos 10 anos, para além de esperar que seja uma cultura que efetivamente cresça – ou que haja mais interesse em novas plantações, em mais investimento em investigação, porque já se faz muito bem maracujá em Portugal –, espero também que no futuro seja uma opção criarem este tipo de apoio entre eles.

 

Gostaria de saber mais sobre a Cultura do Maracujá?

Acompanhe a Engª Sandra Ferreira no curso sobre esta cultura, desenvolvido pela AgroB!