Em 2024, a Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV) registou o nível de produção mundial mais baixo desde 1961. O diretor-geral da OIV, John Barker, atribuiu esta quebra principalmente a “condições ambientais extremas, calor, seca e eventos meteorológicos imprevisíveis” em regiões produtoras de ambos os hemisférios.
A Europa, que representa 61% da produção mundial, registou 138,3 milhões de hectolitros – o valor mais baixo desde o início do século. França caiu 23,5% para 36,1 milhões de hectolitros, o nível mais baixo desde 1957. Portugal acompanhou esta tendência negativa, com 6,9 milhões de hectolitros e uma quebra de 8,2%.
O que está realmente a mudar na vinha portuguesa?
- As vindimas estão a acontecer cada vez mais cedo
Há 50 anos, outubro era o mês das vindimas no Douro. Hoje, em muitas quintas, a colheita começa ainda em agosto. Segundo dados recolhidos por viticultores e técnicos ao longo das últimas décadas, a data de vindima antecipou-se em mais de um mês em várias regiões portuguesas.
De acordo com o Professor Carlos Lopes do Instituto Superior de Agronomia (ISA), citado no Agroportal, “Hoje as vindimas são feitas cada vez mais cedo, logo no princípio de agosto. As uvas ficam maduras, ficam doces mais cedo, mas há outros compostos que não acompanham esse processo.”
As uvas estão a amadurecer mais rapidamente devido ao aumento das temperaturas, o que resulta em vinhos com teores de açúcar e de álcool mais elevados. O resultado prático é uva tecnicamente madura, mas com perfil aromático incompleto – os fenóis e os aromas não acompanham a maturação dos açúcares ao mesmo ritmo. Teores alcoólicos de 14% e 15% são cada vez mais comuns, acima do que os mercados internacionais pedem.
- O stress hídrico está a comprometer ciclos inteiros
Quando a temperatura ultrapassa os 35ºC, a videira entra em modo de defesa e reduz ou cessa a fotossíntese. Este mecanismo de proteção, que era acionado pontualmente, tornou-se rotina em regiões como o Douro, onde séries de 20 ou mais dias consecutivos acima desse limiar são hoje uma realidade.
Investigação produzida no âmbito do projeto WineClimAdapt, coordenado pelo INIAV e com campo experimental na Herdade do Esporão, estudou o comportamento de cerca de 190 castas face ao stress hídrico, utilizando métricas como a eficiência no uso da água (WUE) e a termografia. Os resultados evidenciam diferenças significativas entre castas na capacidade de resistir a condições de défice hídrico – uma informação determinante para quem planeia novas plantações.
Carlos Lopes, Professor do ISA, sublinha que a escolha das castas deixou de ser apenas uma questão de aptidão enológica: “Até aqui, escolhíamos as castas em virtude das suas aptidões; agora temos de incluir outros fatores como a resistência ao stress abiótico, a temperatura ou a água.”
- Novas pragas e doenças estão a expandir-se
A Scaphoideus titanus, a cigarrinha-da-vinha vetor da Flavescência Dourada, é um exemplo claro do impacto das alterações climáticas na dinâmica das pragas. Originária da América do Norte e detetada em Portugal pela primeira vez em 2000 no Norte do país, a sua área de distribuição tem-se expandido progressivamente.
Em 2024, a DGAV (Direção-Geral de Alimentação e Veterinária) publicou o Despacho n.º 39/G/2024, estabelecendo quatro zonas demarcadas em erradicação para a Flavescência Dourada e atualizando a lista de freguesias onde o inseto vetor está presente. Em 2025, uma nova zona demarcada foi estabelecida no concelho de Chaves. A tendência é clara: a suavização dos invernos favorece a sobrevivência e a expansão do inseto.
O que é a Flavescência Dourada?
É uma das doenças mais graves da videira, causada por um fitoplasma transmitido pela cigarrinha Scaphoideus titanus. Provoca o bloqueio dos vasos liberianos, acumulação de açúcares nas folhas, forte redução do rendimento e morte progressiva das cepas em três anos. É um organismo de quarentena na UE desde 1993, com plano de controlo obrigatório em Portugal desde 2013 (Portaria 165/2013).
Com toda esta evidência disponível, o principal erro que os viticultores cometem é continuar a operar com os mesmos parâmetros de há 20 anos: os mesmos calendários de tratamento, os mesmos momentos de rega, as mesmas decisões de vindima.
O aumento da volatilidade da produção, que durante décadas tinha diminuído graças à melhoria da tecnologia e da gestão vitícola, está de regresso. Adaptar-se não é opcional. É uma questão de viabilidade económica a médio prazo.
A adaptação já está a acontecer nas empresas e quintas mais atentas. Existem quatro linhas de ação concretas com impacto comprovado:
- Relocalização das vinhas para cotas mais elevadas e exposições norte. Empresas como a Sogrape estão a desenvolver campos experimentais em zonas mais elevadas do Douro Superior para obter vinhos mais frescos, zonas com maiores amplitudes térmicas diurnas. No Alentejo, há produtores a plantar no litoral alentejano, uma zona sem tradição vitícola, para obter uvas com maior acidez e frescura devido a amenidade climática do oceano atlântico, que depois misturam com as do interior, ou empresas que escolhem o distrito de Portalegre para implantar novas vinhas porque há maior probabilidade de precipitação no futuro.
- Aposta em castas com maior resistência ao stress hídrico e térmico. O projeto WineClimAdapt criou rankings de tolerância ao escaldão e de eficiência no uso da água para cerca de 190 castas. Castas como a Touriga Franca e a Touriga Nacional têm sido estudadas pelo Instituto Politécnico de Viseu nas suas projeções a 100 anos para o Dão, apontando para a necessidade de abordagens climate-smart.
- Monitorização em tempo real da água no solo e evapotranspiração. A Symington utiliza sondas para medir a disponibilidade hídrica no solo. A Sogrape participa no projeto europeu VitiGEOSS, que usa imagens de satélite para monitorizar parcelas. A ADVID (Associação para o Desenvolvimento da Viticultura Duriense) lidera o CoLAB VINES&WINES com foco na gestão hídrica da Região Demarcada do Douro.
- Rega de precisão, mesmo em regiões de tradição sequeiro. A gestão das relações hídricas da videira é identificada pela ADVID como uma das ferramentas prioritárias para a adaptação às alterações climáticas, a par da modelação das relações solo/planta/atmosfera. O enrelvamento tem também sido adotado como protetor do solo contra a erosão causada pelas chuvas intensas em períodos curtos.
As alterações climáticas não são uma ameaça futura para a viticultura portuguesa – são a realidade de cada campanha. Os dados da OIV para 2024 são a confirmação estatística do que os viticultores sentem no terreno há anos: vindimas mais cedo, stress hídrico mais intenso, novas pressões fitossanitárias.
Portugal tem, contudo, vantagens únicas: um portefólio de cerca de 300 castas autóctones, muitas delas historicamente adaptadas a condições de calor e seca; uma comunidade científica ativa nas principais regiões; e empresas líderes a investir em investigação e tecnologia. A questão não é se é possível adaptar-se – é se cada produtor vai agir em tempo útil.
Não é necessário mudar tudo de uma vez. Mas ignorar o problema vai custar cada vez mais caro.
Fontes:
OIV – State of the World Vine and Wine Sector in 2024, abril 2025. oiv.int
Voz do Campo – Adaptação da viticultura às alterações climáticas (Projeto WineClimAdapt / INIAV), janeiro 2025. vozdocampo.pt
Executive Digest – Alterações climáticas mudam perfil dos vinhos europeus (estudo PLOS Climate, Wolkovich et al.), maio 2025. executivedigest.sapo.pt
Agroportal – Vinho com menos cor e menor acidez: o impacto das alterações climáticas na vinha (Prof. Carlos Lopes, ISA), dezembro 2021. agroportal.pt
DGAV – Despacho n.º 39/G/2024 — Flavescência Dourada: zonas demarcadas em erradicação. dgav.pt
Agroportal – Flavescência Dourada da videira: nova zona demarcada (Despacho 72/G/2025, Chaves), julho 2025. agroportal.pt
Público / Fugas – O futuro do vinho em Portugal depende de uma revolução silenciosa, já em curso, novembro 2022. publico.pt
ADVID – Alterações Climáticas e Viticultura. advid.pt
