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Reflexões sobre nova estratégia para a fileira dos vinhos do Dão

É meu objetivo no presente artigo contribuir para o debate e melhoria da massa critica na fileira dos vinhos do Dão. Na minha opinião e na qualidade de apreciador de vinhos, busco novas marcas, novas propostas de valor, a região demarcada do Dão, pelas suas caraterísticas de solos, climas, castas e saber fazer dos seus players, viticultores, vinificadores e comercializadores, produz dos melhores vinhos de mesa de Portugal. A região tem potencial a longo prazo, para liderar de forma inequívoca, reconhecida, traduzida em prémios, comunicação, turismo, valor acrescentado, riqueza distribuída por toda a superfície regional, a liderança e o topo da qualidade fantástica dos vinhos de Portugal.

É minha convicção quem produz uvas terá algumas dificuldades, pelo que, a 1.ª questão que coloco é sobre a rentabilidade da produção de uvas, ou seja, quem é exclusivamente produtor de uvas, o viticultor, a base da cadeia, tem a rentabilidade intrínseca para o efeito? Tem condições e incentivos no valor como as uvas são pagas, para que o seu maior esforço na qualidade, rigor, determinação, colocadas no terreno, na parcela, na videira, se traduzem em maior valor financeiro? O empresário vitícola é suficientemente reconhecido pelos compradores/valorizadores das uvas e pela sociedade pelo seu esforço e sacrifício? Vale a pena fazê-lo? Em síntese, é negócio ser exclusivamente produtor de uvas? É uma mais valia que dá para sustentar a família de forma digna e sustentada no tempo? Ou pelo contrário, para obter a justa valorização do seu empenho o viticultor tem que ser simultaneamente vinificador, transformar-se na entidade que faz e mais do que isso, comercializa o vinho? Tem necessidade para sobreviver de se apropriar da margem do elo seguinte da fileira?

Deixo as questões para reflexão dos membros da fileira dos vinhos do Dão e da sociedade em geral: O que fazer para melhorar o negócio da produção de uvas? O mercado funciona em cada ano função da oferta e valoriza o incremento de qualidade das uvas?

Continuo com 2.ª bateria de questões sobre os restantes elos da fileira dos vinhos do Dão: será o negócio da vinificação gerador de maior margem líquida que a produção? Há equilíbrio e funcionamento de mercado entre produzir uvas e transformá-las? Ou, quem concentra as produções apropria-se de forma desequilibrada da margem financeira? Ou sendo esta última interessante, podem os players da vinificação existirem de forma autónoma o 3.º elo da cadeia, o conjunto das entidades que só comercializam o vinho? Ou é mais eficaz, gera melhor resultado económico, quem vinifica distribuir os vinhos?  

Coloco este grupo de perguntas porque a verticalização no negocio das uvas e do vinho, fenómeno que acontece à escala mundial, que também se verifica nas principais regiões vinhateiras de Portugal e representa uma incorporação da atividade dos players da fileira, isto é, à medida que o tempo passa, começa na comercialização a qual reunifica com a vinificação e posteriormente, caminham para colocar a vinha e a produção de uvas na mesma entidade, ou seja quem distribui e comercializa vinhos também os industrializa e produz, tira partido das economias de escala, das ajudas públicas, da imagem junto de mercado da imagem de serem produtores. Em Portugal verifico nas diversas regiões vinhateiras o esmagamento da margem financeira do conjunto muito alargado de micro, pequenos e médios viticultores seus fornecedores, seja no valor das produções, seja nos prazos de pagamento. Este rolo compressor não é muito notado pela sociedade porque são muito generosas as ajudas públicas à plantação de vinhas, ao desenvolvimento da fileira e à promoção internacional dos vinhos.

Na minha perspetiva, nem neste momento, nem no futuro próximo, haverá um tipo de vinho do Dão que se vá impor no mercado por concorrer através de preço baixo e quantidade significativa. Há um conjunto de vinhos de gama média, de lote, vinhos de mesa complexos, com tempo de cave exprimem e melhoram as suas caraterísticas, diferenciados, que caraterizam a principal oferta de vinhos da região demarcada do Dão, tendo como contrapartida desta melhor qualidade um preço mais elevado face a outras regiões vinhateiras, embora se traduzam para o consumidor numa melhor relação preço qualidade.

A vinha e o vinho na região demarcada do Dão correspondem uma das principais locomotivas do desenvolvimento económico e social regional, na tradução em resultado financeiro e emprego pela utilização dos recursos endógenos dos territórios, bem como na estratégia de médio e longo prazo, se poderem incrementar e alavancar. O que fazer para os melhorar? Quais as estratégias para transformar estes players e região, em melhores resultados económicos? Há lugar para se produzirem vinhos de qualidade baixa-média e média, mais competitivos e ao mesmo tempo, paralelamente, vinhos de qualidade premium e extra premium reconhecidos em concursos internacionais e pelas pontuações atribuídas pelos principais peritos mundiais. 

Defendo que teremos muito a aprender com o trabalho e estratégia empregue pelos viticultores e vinificadores alemães e austríacos, os quais possuem piores condições de solos e climas que as da região do Dão conseguindo melhores resultados na valorização e classificação dos seus vinhos. Não serve de alibi que produzem vinhos em linha com o padrão de procura dos mercados internacionais. Os vinhos do Dão serão transformados num dos padrões de perfil de qualidade dos vinhos no mercado internacional, à medida que nele forem mais e melhor comunicados e conhecidos, devido à sua qualidade intrínseca, ao seu perfil próprio e característico. 

Como o fazer? Que caminhos percorrer? 

Do ponto de vista macro, será através duma vitivinicultura de precisão em que cada “vitivinicultor relojoeiro” conhece os pormenores das suas parcelas, solos e climas, respetivas castas, conseguindo tirar o respetivo máximo potencial vitícola. 
Segue-se o elo seguinte da cadeia, próprio ou autónomo, transforma uvas de alta qualidade em vinhos cuja qualidade ainda se torna mais alta ou superior ao que de melhor se faz no mundo. Percorrer este caminho vai melhorar a eficiência e eficácia económico-financeira do negócio, quer ao nível da capacidade real, quer do potencial, isto é, haverá incremento do valor acrescentado quer pelo abaixamento dos custos de produção, quer pelo incremento dos preços de venda, processo que decorrerá e se aprofundará ao longo do tempo. Do ponto de vista micro, passa pelo viticultor acreditar que consegue atingir o objetivo de ser o melhor do mundo traduzido em resultado do negócio, é o primeiro passo do processo.
Segue-se trabalhar afincadamente, dia a dia, ano após ano para adquirir informações e dados da vinha, após a respetiva análise fazer a sua transformação em conhecimento vitícola ao nível da parcela/casta/videira, é o segundo passo. 
Entregar as uvas em centros de vinificação competentes, próprios ou de terceiros, capazes de extrair a qualidade das uvas e transforma-las em vinhos do mesmo nível qualitativo, esta é a componente estratégica do terceiro passo. 
Trabalhar os pormenores da vinificação, matéria-prima, condições de vinificação, emprego e tirar partidos dos meios tecnológicos que preservam e incrementam a qualidade das massas vínicas, etc. todos estes fatores devem ser articulados para recolha de dados, sua sistematização e transformação em conhecimento específico e diferenciador de qualidade nas vinificações, este é o quarto passo. 
Comunicar, animar, dar a conhecer aos mercados internacionais os vinhos do Dão transformando-os naquilo que eles são realmente, vinhos complexos, subtis, únicos, tornando-os mais e melhor reconhecidos, valorizados, diferenciados e internacionais, fazendo-o tirando partido do trabalho de grupo da fileira, da sua capacidade de cooperação numa estratégia de marketing forte, concertada e ganhadora, este é quinto passo. 
Para fechar o ciclo, a região do Dão tirará partido do enoturismo topo de gama, premium, glamour. 

Em conclusão, todo este processo assente nos vários passos descritos é aquilo que eu acredito e tenho a certeza ser possível para a região demarcada do Dão e para as suas gentes: o topo qualitativo da vitivinicultura de Portugal